timoteoshel@yahoo.fr........Clique em The Hunger Site. Melhor seria se fizesse deste site a sua Homepage
4.5.08
acabaram-se as bizantinices sobre o neoliberalismo
"O espectro da fome paira sobre a cabeça dos mais necessitados, com muita gente a viver abaixo do limiar de pobreza e com esquemas de apoio social muito deficientes"
A different point of view, Pet Shop Boys, Very, 1993
"When I'm sitting so close to you there's only one thing that I wanna do but I know what you're likely to say that I'm going about it the wrong way
We can't agree about anything where to go or even where we've been and I know what you're likely to do say that I've never cared about you
And all I wanted to say was that I love you but you're telling me now you don't believe it's true You got a different, a different a different point of view You got a different point of view
You don't believe a single word I say If I'd say black was white, you'd say it was grey but in spite of being treated this way I still dream of you all night and day
And all I wanted to say was that I love you but you're telling me now you don't believe it's true You got a different, a different a different point of view You got a different point of view
Just this once Just say yes Please
You've got a clever way of haunting me I'm never scared, but you're still daunting me 'cause I know what you're likely to say and I know that you'll get your own way
And all I wanted to say was that I love you but you're telling me now you don't believe it's true You got a different, a different a different point of view You got a different point of view"
Não há ninguém que explique ao Procurador-Geral da República que, enquanto figura de Estado (e pior, a esse título), não deve prestar declarações a órgãos de comunicação social, sobre assuntos sérios, em figuras ridículas que faz a título privado?
há uma coisa que me chateia na caixa de comentários do dragão
os comentários ficam lá enterrados e ainda por cima nesta nova modalidade penso que desaparecem ao fim de algum tempo
um dos meus passatempos preferidos, andar a desenterrar ossadas, corre assim o risco de ser uma corrida contra o tempo (mais uma)
vou por isso ser rápido
"vivemos todos a testar hipóteses. Mas nem todas as hipóteses se testam da mesma maneira" (antónio, algures nas catacumbas do dragão, numa epístola aos ateus)
Há quase três anos, num altura em que ainda não sabia como se colocava num blogue uma coluna de links para os blogues preferidos, escrevi o seguinte post:
"Qual será a probabilidade de, por mero acaso, o universo ter tido uma singularidade inicial que se assemelhe, mesmo que remotamente, ao que é actualmente? Será menor do que um em 10 elevado a 10 elevado a 23. Donde provém esta estimativa? Deriva de uma fórmula de Jacob Beckenstein e Stephen Hawking relativa à entropia de um buraco negro e, se fosse aplicada neste contexto particular, obter-se-ia este enorme resultado. Depende da grandeza do universo, mas, se adoptar o meu universo favorito, o número será, de facto, infinito.
O que nos diz isto acerca da precisão que estará necessariamente envolvida na construção do big bang? É realmente muito, muito extraordinária. Representei a probabilidade num desenho do Criador, encontrando um ponto extremamente pequeno naquele espaço de fase que representa as condições iniciais a partir das quais o nosso universo deverá ter evoluído para se assemelhar remotamente àquele em que vivemos (figura 1.30 - que aqui não reproduzo, itálico meu, timshel ). Para o encontrar o Criador teve de localizar esse ponto no espaço de fase com uma exactidão de um em 10 elevado a 10 elevado a 23. Se pusesse um zero em cada partícula elementar existente no universo, ainda não poderia escrever esse número por completo. É um número extraordinário. Tenho estado a falar de precisão, isto é, de como a matemática e a física se encaixam com extraordinária exactidão. Abordei também a segunda lei da termodinâmica, que é frequentemente considerada uma lei algo menos rigorosa — refere-se à aleatoriedade e ao acaso —, mas há algo bastante preciso escondido nesta lei. Na sua aplicação ao universo está relacionada com a precisão com que o estado inicial foi criado."
("O grande, o pequeno e a mente humana", Roger Penrose, tradução de David Resendes [com pequenas correcções linguísticas que entendi necessárias, feitas por mim], Editora Gradiva, pags. 57 a 60)
Sem nada ter que ver com este post, aproveito (quando me decido a escrever aqui alguma coisa tenho que aproveitar:)) para chamar a atenção para este post do Mats.
Li hoje uma descrição que, devidamente adaptada, se aplica como uma luva ao dragão : "alguém com um exército de frases gongóricas movendo-se pelo horizonte em busca de uma ideia".
Tenho que admitir que tem encontrado algumas. Aqui, mais uma.
In dubio pro dragão (à atenção de ateus, neoliberais e conservadores tradicionalistas das leis da natureza - e do dragão, claro)
O dragão tem-me censurado alguns comentários que lá tenho deixado no seu blogue. Embora o tenha ameaçado que os colocaria aqui no meu blogue, confio na sua sapiência. Se ele não os coloca é porque não merecem ser publicados.
Em contrapartida, vale a pena aqui colocar este excerto de uma obra que li, via dragão:
"Oh, Thérèse, é isso um crime? Pode dar-se este nome ao que serve a Natureza? Tem o homem poder para cometer crimes? E quando, preferindo a sua felicidade à dos outros, destrói tudo o que encontra à sua passagem, acaso fez outra coisa senão servir a Natureza, cujas primeiras e mais seguras inspirações o aconselham a ser feliz, não importa à custa de quem? O sistema do amor pelo próximo é uma quimera que devemos ao cristianismo e não à Natureza (...) Mas o filósofo não admite essas relações gigantescas: não considerando nada no Universo para além de si mesmo, não vendo mais nada, relaciona tudo com a sua pessoa. Se trata bem ou acaricia por instantes os demais, fá-lo sempre em função do proveito que julga poder extrair disso; quando já não necessita deles, domina pela sua força, renuncia então e para sempre a todos esses formosos sistemas de humanidade e de beneficiência aos quais só se submete por política. Não teme dominar tudo, fazer seu tudo o que o rodeia, e sem se preocupar com o que possam custar aos demais os seus prazeres satisfá-los sem reflexão e sem remorso. - Mas esse homem de que fala é um monstro! - O homem de que falo é o homem da Natureza! (...) Lobos que devoram cordeiros, cordeiros devorados por lobos, o forte que sacrifica o fraco, o fraco vítima do forte, eis aqui a Natureza e estes são os seus desígnios e os seus planos; uma acção e uma reacção perpétuas, uma infinidade de vícios e de virtudes, um perfeito equilíbrio, numa palavra, que resulta da igualdade do bem e do mal sobre a Terra, equilíbrio essencial para a manutenção dos astros e da vegetação e sem o qual tudo seria destruído num instante."(Sade, "Justine, ou os Infortúnios da Virtude")
Engane-se quem veja neste excerto a última questão. Ela é apenas o prelúdio da última.
Race for the Prize, The Flaming Lips, The Soft Bulletin, 1999
"Two scientists were racing For the good of all mankind Both of them side by side So determined Locked in heated battle For the cure that is their prize But it's so dangerous But they're determined
Theirs is to win If it kills them They're just humans With wives and children
Upwards to the vanguard Where the pressure is too high Under the microscope Hope against hope
Forging for the future But to sacrifice their lives Both of them side by side So determined
Theirs is to win If it kills them They're just humans With wives and children
Theirs is to win It will kill them They're just humans With wives and children"
"A principio é simples, anda-se sózinho passa-se nas ruas bem devagarinho está-se bem no silêncio e no burburinho bebe-se as certezas num copo de vinho e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo diz-se do passado, que está moribundo bebe-se o alento num copo sem fundo e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito entra-se cansado e sai-se refeito luta-se por tudo o que se leva a peito bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja olha-se para dentro e já pouco sobeja pede-se o descanso, por curto que seja apagam-se dúvidas num mar de cerveja e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio enfrenta-se a vida de fio a pavio navega-se sem mar, sem vela ou navio bebe-se a coragem até dum copo vazio e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa e outra maré cheia virá da maré vaza nasce um novo dia e no braço outra asa brinda-se aos amores com o vinho da casa e vem-nos à memória uma frase batida hoje é o primeiro dia do resto da tua vida."
Cada vez me sinto mais afastado do pensamento do Lutz (e ele certamente do meu). O mais curioso é que penso que o afastamento é sobretudo um afastamento no que respeita a valores culturais e políticos (não no sentido partidário ou de escolhas económico-sociais).
Mas gostaria de ter escrito isto, é exactamente aquilo que sinto:
"Quando me aparece o caso no jornal, viro a página. Quando no noticiário se mostra o último episódio da ainda não entrega da menina Esmeralda, mudo de canal. É o que faço as vezes aquando de notícias de horrores vindos de longe, de Darfur, da Costa de Marfim e semelhantes. Custa-me ver isso. Custa-me antes de mais saber a minha compaixão inconsequente. No caso da Esmeralda, acrescenta-se a vergonha e a raiva impotente ver isso passar-se aqui a minha frente, no país em que vivo - perverso, cruel e desnecessário; e mesmo assim, ao que parece, inevitável."
Desregule-se a actividade bancária nos EUA e deixe-se a competição selvagem a funcionar a todo o vapor.
Junte-se um fosso cada vez mais maior entre quem tem liquidez (os ricos) e quem não a tem (nem a liquidez nem nenhum outro recurso) (os pobres) e esqueça-se que a actividade bancária numa sociedade com uma crescente erosão da classe média corre o risco de se queimar.
Deixe-se em lume brando os bancos a emprestar cada vez mais, a pisar e a ultrapassar o risco (a competitividade é feroz e quando não se têm bons clientes a quem emprestar o dinheiro não há outro remédio senão emprestar dinheiro a "tesos" pensando sempre que vai correr tudo bem, que talvez esses pobres diabos consigam, com um pouco de sorte, respeitar as suas obrigações bancárias).
Recorde-se de vez em quando que a actividade bancária só existe se se conseguir colocar a liquidez de quem a tem nas mãos de quem a não tem mas que consiga pagar, com juros.
Quando todos os índices apontarem para um crescente e descontrolado processo de desigualitarização social nos EUA, os bancos (sobretudo se a actividade bancária estiver completamente desregulamentada e descontrolada como é - ou foi até há poucos dias - lá o caso) já não podem sair do forno e devem lá ficar até esturrar e o dinheiro do contribuinte vier apagar o fogo.
Nas eleições presidenciais dos EUA, embora simpatize mais com os candidatos democratas, obviamente que prefiro o estilo de John McCain.
Mas vai ser um fartote ver este, ou estes ou estes, apoiar um candidato de "esquerda" que vai questionar a fé religiosa do candidato da direita. Ou, finalmente, reconhecerão que mais importante que a "justiça social" (uma treta), o que é importante é o ateísmo militante?
Depois de Chavez só falta agora isto. Eu, se fosse a eles, tirava o Cristóvão Colombo da fotografia e riscava a América do mapa.
Se existe alguma canção que é para se ouvir com o som no máximo é esta.
"Here comes a union leader with a brand new deal To save the industry-talking profitability Profitability - What does that mean to me? Whether a profit or a loss I'm just working for the boss Its only foolishness to speak your masters words The fool must be put down The whole thing must be turned around You're out on your own
A Labour party man comes knocking on my door Around election time once more he's counting on my loyal support There's been betrayals he agrees And there I have his sympathy But we must think of unity To get the party on it's feet What did his party ever do for me? If it should sink without a trace I won't lose a moments sleep You're out on your own
Where is the man who is speaking up for me ? 'Community leaders' want more black shop keepers The unions a say in the jobs sold away And I'm told that my home's in a nuclear free zone But that ain't much help when there's bills to be paid 'Police accountability'; 'Non-nuclear defence strategy' This foolish ideology has made the fight a mockery! I ask for nothing only that I should be heard I know your history and that gives me authority
The Age of Self, Robert Wyatt, Old Rottenhat, 1985*
"They say the working class is dead, we're all consumers now They say that we have moved ahead - we're all just people now There's people doing 'frightfully well' there's others on the shelf But never mind the second kind this is the age of self They say we need new images to help our movement grow They say that life is broader based as if we didn't know While Martin J. and Robert M. play with printer's ink The workers 'round the world still die for Rio Tinto Zinc And it seems to me if we forget Our roots and where we stand The movement will disintegrate Like castles built on sand"
*Do maior estalinista vivo. Cumprindo os meus deveres para com a lista do despastor.
"Os Cristãos não apregoam um caso invulgar de morte aparente em que o paciente foi incorrectamente diagnosticado. Defendem um milagre em que Jesus terá morrido, de forma final e definitiva, mas que "venceu a morte".
Os detractores do princípio antrópico e da existência de uma intencionalidade transcendental que presidiria à existência do Universo, da vida e, sobretudo, da vida humana, argumentam que tudo isto nada mais é que uma simples obra do acaso. A matéria organizou-se assim e ponto final.
Nestes termos, se o tempo fosse infinito (o que parece não ser, dado que o Universo nem sempre existiu e antes dele não se pode falar de tempo) um macaco sentado a um computador acabaria por escrever uma das peças de Shakespeare.
Soube hoje através do artigo do Nuno Crato no Expresso que, na Universidade de Plymouth, houve quem fizesse a experiência e desse um computador a um grupo de símios.
Os macacos cagaram e mijaram no teclado do computador e conseguiram destruir a máquina antes de formarem uma única palavra.
Espero que tenham comunicado aos ateus científicos e experimentalistas o resultado de mais esta experiência científica."
O post está consideravelmente demagógico e a questão é muito mais complicada.
A experiência de Plymouth e a história do macaco escrever uma peça de Shakespeare tem por detrás algo de puramente científico, e que nada tem que ver com a existência ou não de Deus. A questão é muito simples, se usares todos os caracteres da escrita ocidental de forma completamente aleatória num processo de escrita, a probabilidade de daí resultar o Macbeth não é nula. É ínfima mas não é nula, e se houver um número suficientemente grande de repetições (absolutamente gigantesco neste caso, mas ver law of large numbers na Wikipedia) é natural que venha a surgir a dita cuja peça (a probabilidade dela surgir não aumenta, mas como aumenta a amostra de casos, tender-se-á a manifestar esta ocorrência também). Isto é ciência, nada a fazer.
A presença de macacos é que foi obviamente folclore puro e simples. Até porque fica por provar se os macacos seriam capazes de aleatoriamente escolher caracteres (os seres humanos sabe-se que não são, tendemos sempre para certos padrões). É mais cientifico pensar que um computador com uma capacidade de processamento enorme e tempo ilimitado chegaria ao Macbeth por distribuição aleatória de caracteres.
Agora o princípio antrópico é coisa muito mais difícil de avaliar em termos probabílisticos. Para começar, seria necessário que soubéssemos avaliar a probabilidade das coisas serem como são e não serem de outra maneira qualquer. Ora isso implicaria saber que outras maneiras quaisquer existiriam e com que probabilidade ocorreriam. É exercício de fantasia pura e simples, seria preciso imaginar universos paralelos.
A fé no transcendente nada tem que ver com isto. Cientificamente, qualquer cadeia de acontecimentos tem uma probabilidade não nula de acontecer. Inclusive os milagres (com isto é que muito cientista se passa :P). A interpretação e a leitura de intencionalidade que se dá aos acontecimentos é que nada tem que ver com a probabilidade destes acontecerem. É algo do domínio da interioridade e por natureza da subjectividade.
E sabes que a mais típica atribuição de intencionalidade a um fenómeno aleatório acontece no jogo. "Ah já joguei com esta combinação portanto vou manter-me nela até ganhar na lotaria" é crença muito comum, baseando-se na ideia errada de porque essa combinação não calhou uma vez tem mais probabilidade de calhar a seguir pois a que vem a seguir é usualmente diferente da anterior. A atribuição de intencionalidade a fenómenos aleatórios está na base de toda a superstição!
Deus é paradoxal nisso. Por um lado Ele não quer que o conheçamos através dessa atribuição de intenção (veja-se Job) por outro lado é a única maneira humana que em geral temos de conceber uma presença transcendente. Por isso é que estes exercícios são estéreis. Deus revela-se no exercício amoroso e na interioridade, aí sim é mais certo encontrá-lo."
Escusado será dizer que subscrevo o comentário do Luís.
Contudo, o objectivo deste post é chamar a atenção do Ludwig para a parte do comentário do Luís em bold.
O mais poderoso argumento do ateísmo contra o princípio antrópico e a existência de uma intencionalidade transcendental que presidiria à existência do Universo e da vida (nomeadamente da vida humana) é que, num sistema em que o tempo e o espaço sejam infinitos, tudo pode acontecer (até este nosso mundo).
Curiosamente contudo, nessa mesma concepção ateísta, o "tudo" termina quando se fala em milagres.
O melhor post sobre o subprime da Revista Atlântico: o dragão a discorrer sobre a ingratidão do Mercado (ou será este post do dragão um elogio à lucidez e prudência do Mercado travestido em Cronos?).
Este é um comentário particularmente feliz do Luís Rainha ao post que linko.
Este post do Gabriel é paradigmático do raciocínio neo-liberal. Na cartilha neo-liberal, a solução de todos os problemas é deixar a "ordem espontânea", os "processos naturais", tomar conta do assunto numa espécie de medicina naturalista. É assim que nesta cartilha a redistribuição não faz sentido porque, num sistema social não-redistributivo, a longo prazo os pobres morreram todos, eliminados pela "ordem espontânea".
Segundo eles, a longo prazo, se deixarmos a "ordem espontânea" funcionar, todos os problemas serão resolvidos (e de certo modo é verdade no sentido que é uma evidência que a longo prazo todos estaremos mortos).
O que é estranho nesta moral é a completa indiferença neo-liberal aos custos humanos do curto prazo. Ainda não percebi se eles consideram o curto prazo como uma espécie de contrariedade que tem que se suportar até o paraíso neo-liberal chegar ou se é o termo "humanos" que não consta da cartilha neo-liberal.
"Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um." Actos dos Apóstolos, 2, 44 e 45"
Karl Marx, "Crítica ao Programa de Gotha": "Numa fase superior da sociedade comunista, só então o limitado horizonte do direito burguês poderá ser definitivamente ultrapassado e a sociedade comunista poderá escrever nas suas bandeiras: ‘De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades!’"
moral da história: "eu acredito que no interior da Terra existe uma tartaruga gigante que guarda um importante segredo. Um dia a humanidade vai ser capaz de cavar um buraco suficientemente fundo para a encontrar, altura em que o grande segredo será revelado"
O blogue "Que Treta!" tem apresentado uma série de posts particularmente interessantes em defesa do ateísmo.
Neste momento apenas me ocorre colocar algumas questões (que aliás já coloquei nos comentários ao referido blogue).
Porque é que a matéria tem condições que permitem a vida?
É assim porque é assim?
Tem algum interesse colocar a questão?
Em que medida a resposta, qualquer que ela seja (e mesmo uma "não-resposta" é uma resposta, isto é, é uma escolha de uma resposta), a estas questões é susceptível de traduzir a nossa própria existência?
Isto é, se a resposta indicar que não existe um qualquer sentido na vida para além daquele que decorre das leis da matéria (e se não se crer que estas leis são uma imanência do Transcendente), qual o conceito de existência, enquanto indíviduos e enquanto sociedade, que decorre, lógicamente, desta escolha pela "não-crença"?
A propósito do episódio da "tourada no YouTube" lembrei-me de um excerto de um livro de Viktor Frankl, "Man's Search for Meaning" (que, penso, não se encontra traduzido para português):
"Não foram só a partir de alguns ministérios de Berlim que foram inventadas as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos gabinetes e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam pessoas que até receberam o Prémio Nobel. De facto, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas compostas por proteínas, pouco importa que um deficiente mental seja eliminado como inútil e que ao deficiente mental se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: trata-se de um raciocínio perfeitamente lógico e consequente." (tradução livre)
Sendo óbvio que não pode haver comparação entre a actual situação do ensino em Portugal e as câmaras de gás nazis, e sendo a distribuição de culpas muito vasta, enquanto os pais dizem que a culpa é dos professores e os professores dizem que a culpa é dos pais, e toda a gente fica satisfeita por a culpa residir algures, politicamente, ninguém vai querer tirar conclusões porque as conclusões podiam ameaçar "dogmas" políticamente correctos sobre a escola, o ensino, a sociedade, o papel dos valores, a regulação (com rédea curta) do capitalismo nos meios de comunicação social de massas, etc.
Não deixa de ser irónico este post em que se defende a "punição exemplar" da miuda do video; depois da total ausência de políticas de estruturação e fundamentação de valores morais, de que é um exemplo o mais radical laxismo na regulação dos meios de comunicação social de massas em nome da sempeterna liberdade (ou será laissez-faire?), aparece a repressão pura e dura e exemplar como único remédio: “the show must go on” e os infelizes "enchidos" (utilizando a feliz expressão do dragão) que estiverem no momento errado no lugar errado serão simplesmente trucidados.
O tema da tourada passada no Youtube e vista na televisão vai-se felizmente diluindo no tempo.
Interessa-me contudo tentar (a frio, que é como penso que estes temas devem ser abordados) "compilar" os posts que mais me chamaram a atenção (nalguns deles os comentários são por vezes mais interessantes que os próprios posts) pois parece-me que vários dos problemas levantados são não só importantes como estruturais (e estruturantes).
Existe algo dramático (e significativo) na liderança de Menezes: é vir este e este defendê-lo. Só falta um subsídio governamental do PS à liderança de Menezes. Até percebo. Seria uma espécie de seguro de vida para o PS.
e depois deste Anjo, virá o Pablo, e o Eco e um gajo cujo nome não me lembro*
Depois do halterofilista dos pesos metafísicos, segue-se o Anjo à escuta do Astucioso:
"As coisas, inesperadamente privadas do seu sentido suposto, do lugar que lhes é atribuido na ordem pretensa das coisas (um marxista formado em Moscovo acredita nos horóscopos), provocam-nos o riso. Na origem, o riso é, portanto, do domínio do diabo. Tem algo de maléfico (as coisas revelam-se de repente diferentes daquilo por que se faziam passar) mas também tem em si uma parte de alívio benfazejo (as coisas são mais leves do que pareciam, deixam-nos viver mais livremente, cessam de nos oprimir sob a sua séria austeridade).
Quando o anjo ouviu pela primeira vez o riso do Astucioso, foi tocado pela admiração."
*Este post era um esboço. Seria o primeiro de uma série de posts com um certo sentido. Sucumbiu na tempestade das prioridades. Posto-o agora sem saber o sentido do que queria depois escrever. Nem me lembro de alguns dos personaagens nomeadamente quem era o "gajo cujo nome não me lembro" (já na altura).
e inteligente o dragão: faz dez posts enjoativos e indigestos, bom para quem tem uma betoneira a fazer de cérebro, e depois, pimba, de vez em quando, raramente mas com uma certa regularidade, amarra um gajo
o génio dos pombos dizia que este era o tipo de reforçamento mais viciante, aquele em que o prémio apenas surge intermitentemente, de modo aparentemente aleatório
A zazie nunca me viu mas admiro a lucidez e exactidão do retrato:
"empipado, de livrinho vermelho forrado a grená papal na mão e crucifixo à cinta para exorcizar toda a Direita"
aproveiro para esclarecer uma sua dúvida aí atrás nos comentários em que ela declara peremptoriamente que eu sou maluco quando digo que o único mandamento que Jesus nos deixou foi o mandamento do amor (nas sua palavras: "Essa é pancada tua. De modo nenhum o único mandamento do Novo Testamento podia ser o Amor")
Cito, entre muitos outros e para já (deveria aliás começar pelas palavras de Cristo nos Evangelhos mas prefiro começar pelo Soberano Pontífice), o Papa Bento XVI:
"Esta comunhão com o Deus vivo, assim ele nos diz, põe o homem na luz. Abrem-se os seus olhos e ele vive na luz, isto é, na verdade de Deus, que se exprime no único, novo mandamento, que tudo engloba no mandamento do amor".
"Today, society no longer believes in mortal sin – and its response to suicide shows that it lacks a moral vocabulary with which to make sense of this act. The most striking thing about officialdom and the media’s response to suicide is that they tend to treat it as a normal fact of life. In so far as it is seen as a problem, it is treated as a target-based issue, like literacy rates in schools or reducing the number of obese people. Thus we hear that the Welsh Assembly is going to work out a target for reducing suicide: apparently it wants to see a 10 per cent drop in suicide levels by 2012. Others call on officials to introduce ‘anti-suicide plans’, while mental health professionals insist that teachers should be trained in ‘suicide awareness’. All that is lacking from this repertoire of officialese about targets, raising awareness and ‘lending support’ is for some earnest public-health official to declare a zero-tolerance policy on suicide.
If Durkheim were alive today, it would strike him as incomprehensible that suicide has been disassociated from moral judgment. Of course, society still believes that suicide is wrong, and that suicide is an individual tragedy, especially when young people are involved. Yet running alongside the discussion of suicide as a ‘problem’ is the notion that suicide is also a lifestyle choice."
"Sadly, the casual way in which life is treated these days does not only impact on the manner of ending it. Many now argue that the creation of new human life is a major problem. Influential environmentalist currents regard people – or at least the growth of the number of people – as the primary source of the world’s problems. Newborn children are discussed as an extra burden on our apparently fragile planet. As potential polluters, babies cease to be lovely cuddly things that bring so much joy to our lives, and instead are seen as destructive beings whose carbon emissions must continually be offset. Robbing babies of what we perceive to be their endearing innocence makes it easier to scare people away from having them, or at least from having too many of them. In recent centuries, babies were frequently seen as a blessing – now many argue that not having a baby is a blessing, at least for the environment.
Environmentalist writer Kelpie Wilson explicitly advocates such a reversal in the valuation of human life. She presents abortion, not so much as a necessary option that allows women to determine their lives, but rather as something we should embrace in the name of reducing the population and protecting the environment. ‘To understand that a tiny embryo must sometimes be sacrificed for the greater good of the family or the human species as a whole is the moral high ground that we stand on today’, she recently argued. Why? Because ‘we have to consider how we will live tomorrow on a resource-depleted and climate-compromised planet’. From Wilson’s perspective, abortion is morally justified as a resource-saving strategy. She believes that ‘most women who seek abortions do so in order to conserve resources for children they already have’."
uma das mais curiosas reacções da esquerda "bem-pensante" que partilha da lucidez deste artigo mas que rapidamente é submersa em preconceitos leio eu nos comentários a este post, "João Paulo II", "conservadorismo empedernido" são algumas das fórmulas mágicas com que resolvem exorcizar a argumentação sólida e lógica do artigo
os esquerdistas "clássicos" herdaram infelizmente do catolicismo também algumas das suas manifestações mais retrógradas, os preconceitos e a recusa em pensar pela própria cabeça
1. A Moral apenas pode ter uma base transcendente.
2. Acredito que a base transcendente da Moral é Cristo, filho de Deus.
3. O único Mandamento que Cristo nos deixou foi o Mandamento do Amor.
4. Logo a Moral consiste num único dever: amar.
5. Amar é um imperativo dirigido a todos os comportamentos.
6. Intervir politicamente significa optar por formas de organização social que traduzam o mandamento do Amor.
7. Nos termos do Amor todos os homens são irmãos, daqui decorrendo que todos eles têm direito à dignidade inerente à pessoa humana.
8. A igual dignidade da pessoa humana significa que todos os homens deverão estar nas mesmas condições de acesso aos recursos materiais cujo único proprietário é Deus.
9. Uma política orientada pelo Amor é uma política que conduz a uma maior igualdade de acesso aos recursos materiais.
II
1. Existe apenas um ponto em que os actores políticos estão absolutamente de acordo para se distinguirem entre si: aquilo que permite distinguir as opções políticas de esquerda das opções políticas de direita é a posição que cada uma destas opções tem sobre a igualdade. Será de direita quem considerar que o objectivo da política não é o de conseguir a igualdade entre todos os homens no acesso aos recursos materiais e de esquerda quem considerar que o objectivo da política é o de conseguir a igualdade entre todos os homens no acesso aos recursos materiais.
2. Escolhi esta diferença e apenas ela porque esta é a única diferença comummente aceite por todos ao actores políticos, da direita e da esquerda.
3. As opções políticas de esquerda são portanto as únicas opções políticas compatíveis com o único mandamento que Cristo nos deixou.
4. Apenas ateus ou não-cristão podem logicamente ser de direita.
5. Apenas pode optar logicamente por opções políticas de esquerda quem acreditar que existe um imperativo transcendental no sentido da igualdade entre todos os homens.
6. A igualdade entre todos os homens como imperativo moral absoluto (e não apenas como estratégia conjuntural decorrente da subordinação a outros valores) não encontra outro fundamento que não o transcendente.
7. Apenas pode ser de esquerda, logicamente, quem acredite no mandamento transcendente do Amor (que apenas pode ter uma base transcendente porque é um imperativo moral e, como visto no ponto I.1. todos os imperativos morais apenas podem ter uma base transcendente).
Marx: o desenvolvimento das forças produtivas modifica a superestrutura moral (e esta age num movimento dialéctico sobre a organização social em que decorre o processo produtivo).
Cultura desmaterializável (aquela cujo valor não se encontra ligado a um suporte físico e que é portanto facilmente acessível sem pagar, via downloads pela internet por exemplo).
Só paga quem quer por este tipo de cultura. Os Radiohead como exemplo: aqui, aqui e aqui.
Só produzirá este tipo de cultura quem for capaz de despertar valores morais altruístas porque só os altruístas darão dinheiro a quem o pede em troca da cultura.
Aqueles que transmitem um tipo de cultura sem conteúdo ético altruísta estarão condenados a prazo pois a transmissão dos valores egoístas implica que quem gosta deles vai "sacá-los" de acordo com os seus (e deles) valores (por isso gostam deles). Egoísticamente. Sem dar nada.
Conclusão (toma lá um pouco de Hegel versão Marx, dragão): o desenvolvimento das forças produtivas levará a um mundo em que a moral dominante será altruísta. Esta superestrutura moral levará ao comunismo. A chegada ao comunismo será o resultado do desenvolvimento das forças produtivas ou da acção de uma dada superestrutura moral?
(respondendo(?) aos comentários da zazie num post aí atrás)
o comportamento ético aprende-se como se aprende outro qualquer comportamento (ex. imitação, reforçamento, etc.)
só que uma coisa é o comportamento ético e outra, completamente diferente, são os critérios de validade (e os seus fundamentos) dos referidos comportamentos (isto é, dos valores que eles traduzem)
Lê bem este post zazie: neste meu blogue, só os posts-players (da extremíssima esquerda) em que passo música e os posts em que insulto outras pessoas é que são a sério. Todos os outros posts são pura fantasia e qualquer aparência de realidade que possam ter é pura coincidência.