. Melhor seria se fizesse deste site a sua
Esperei durante algum tempo que alguém, nomeadamente o
João Galamba passasse a post
um seu comentário a
este post do Lutz (que já aqui tive ocasião de comentar).
Como penso que o que disse o João Galamba é demasiado interessante para ficar num simples comentário, passo-o a post (com as adaptações necessárias).
"É por o Papa partilhar elementos da crítica com os autores que mencionei [Adorno, Horkheimer e Habermas] que considero a sua posição um desafio que não deve ser ignorado. E digo isto porque, enquanto o Papa tem uma resposta (que eu — espero que não tenha passado outra ideia — rejeito), Adorno e Horkheimer falham neste ponto. Não acreditando no messianismo Marxista ortodoxo, a sua filosofia redunda num pessimismo paralizante a que urge responder. Nesse sentido, o seu messianismo sem deus e sem redenção pode ser interpretado como ficando aquém do do Papa. É óbvio que a posição deste é a da dogmática católica, e é absolutamente pré-moderna e autoritária. A questão fundamental é como evitar esta dialéctica, e isso é algo que Habermas (e outros, como Taylor — espero eu, já que tento escrever o meu phd sobre a sua alternativa) tentam desesperadamente fazer.
Habermas tenta reabilitar o projecto iluminista, mas a sua alternativa tem algumas lacunas, pois a sua acção comunicativa é meramente formal, esquecendo o conteúdo. Isto são desafios fundamentais para uma esquerda que pretenda criticar o liberalismo, evitando cair na posição da Igreja católica, aliando-se a um conservadorismo inaceitável.
Tanto o liberalismo como o Catolicismo podem ser vistos como narrativas de redenção. São algo que dão sentido ao mundo em que vivemos. É para gente como eu e tu que urge encontrar uma alternativa. Caso contrário, corremos o risco de cair no desespero de Adorno, Horkheimer, convertermo-nos como fez Alasdair MacIntyre (que começou marxista e agora é um neo-Tomista empedernido) ou de nos resignarmos a um liberalismo de mal menor.
(...)
A filosofia antes de Descartes também era religião. Platão e Aristóteles pressupunham uma ordem ética (religiosa), sem a qual nada do que escreveram faria sentido. Se quiseres, e de forma provocatória, toda a filosofia pressupõe uma concepção religiosa do homem e do seu lugar no mundo. É por não ter nada que lhe anteceda que Adorno e Horkheimer acabam num abismo. O seu pensamento é uma teologia negativa (Negative dialectics de Adorno: a false life cannot be lived rightly) porque desaparecida a crença messianica no proletariado não lhes resta nada. Há um tipo de quem eu gosto muito, chamado Jay Bernstein, que diz que a arte moderna não é mais do que o lamento dessa ordem ética perdida. Não pode ser mais do que isso, pois propor algo concreto (o que faz o papa) não lhes é acessível. A viragem de muitos gajos de esquerda para a arte e para a estética como alternativas à razão instrumental tem aqui parte da sua explicação"